quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Fim de ciclo - I - A origem


Vou deixar a Lloyds.

Comuniquei a decisão à minha chefe há umas semanas (porque tinha de o fazer o quanto antes) e transmiti-a hoje (depois de deixar passar a época Natalícia) àqueles com quem trabalho, diariamente. Não foi uma decisão fácil mas foi o conjugar de uma série de factores.

Para começar, foi uma situação que provavelmente só se deu pois teve um timming muito específico. Passo a explicar: ao longo dos últimos dois anos tenho recebido algumas chamadas de "head-hunters" a proporem-me mudanças de emprego. Sempre agradeci os contactos mas quase sempre recusei sequer ir a entrevistas pois sentia-me bem onde estava, tinha metas a alcançar, andava motivado e tinha uma boa situação contratual. Esta chamada seguiu quase pelo mesmo caminho: era uma oferta agradável mas eu não estava interessado. Só que lembrei-me de dizer que namorava com uma farmacêutica e que ela talvez estivesse interessada. Disse que ligaria no dia seguinte.

Só que no dia seguinte eu tive um daqueles dias horríveis. Daqueles em que nem é tanto o trabalho que nos derruba. É mais o facto de os erros e os problemas se sucederem, em geral, por força de novos sistemas/softwares/serviços que os "génios" que controlam a empresa criam e que no "campo de batalha" só vêm atrapalhar, dada a falta de treino que as equipas têm. E depois, claro, quando há problemas tem que ser o manager a resolvê-los e a dar a cara como responsável. Até aqui nada de novo: faz parte do meu trabalho, ponto final. Mas há dias em que um gajo fica mais farto disto, do que outros...

Vai daí, nesse mesmo dia à noite, ainda moído com o dia que tinha tido e depois de a Vanessa dizer que não queria, liguei de volta ao H.H. da véspera e disse-lhe que estava interessado em ouvir mais pormenores. Passados dez minutos fiz um CV, tirei uma foto com o telemóvel, trabalhei-a no Paint, mandei-lhe aquilo e marquei uma entrevista com a Tesco para daí a umas semanas.
(continua)

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Fomos novamente enrabu

Enganados, levados, burlados, comidos de cebolada... Resumindo: enrabu...

Andamos deseperados para mudar de casa. Esta já é pequena, tem falta de luz, não tem espaço que chegue para tudo o que temos e anda tudo desarrumado. 

Tínhamos tudo acertado para ir ver uma casa hoje. Uma casa perfeita, também nas Docas, com dois quartos, cheia de luz, com varanda, com uma vista paradisíaca, bem mobilada, moderna, mais perto do local onde estaciono o carro, sem alcatifas (e o quanto é difícil encontrar uma casa inglesa sem alcatifas...). Mesmo XPTO! Tudo acertado há um mês: ninguém podia ver a casa em Dezembro, mas em Janeiro éramos os primeiros. Tudo acertado para hoje.

Cinco minutos antes da hora combinada ligam-nos a dizer que a casa tinha sido alugada. Ficámos fulos e fomos lá à agência pedir explicações porque tinham-nos dito que éramos os primeiros a ver a casa em Janeiro. No mínimo, caso aparecesse alguém, comunicavam-nos e davam-nos direito de preferência na decisão.

Parece que o atrasado mental que combinou comigo não apontou nada e alguém foi ver a casa ontem. Filho da puta! Não tem outro nome. E mesmo que agora queiramos ir a um advogado não temos prova da marcação, foi tudo marcado por boca por isso não temos caso. Ainda por cima o gajo que fez a borrada nem estava a trabalhar hoje e os outros também não têm culpa, portanto não deu para descarregar tudo em cima deles...

Caraças, pá! Já estávamos mesmo mentalizados que íamos para aquela casa.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

À décima foi de vez

Já estou em Londres de onde parto, amanhã cedo, com destino ao Funchal.

Num ano que vai ter algumas mudanças, nada como começar por um Réveillon original.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Estórias VI - O meu Charles Dickens

Quem me conhece sabe que eu não sou grande fã do Natal. Como eu costumo dizer, opto por gostar do Natal 51 semanas no ano: de quem se gosta, gosta-se sempre. 

Mas ontem, no final de uma semana cansativa de trabalho, eu e a Vanessa fomos jantar fora e ela perguntou-me se eu nunca tinha gostado do Natal. E aí, eu comecei-lhe a contar a hitória dos melhores Natais da minha vida: os Natais de quando eu era puto.

Era sempre igual. Passávamos todos (eu, os meus pais, os meus tios e os meus primos do lado materno) a noite e o dia de Natal, em casa da minha avó materna. Era o ano todo a pensar naquilo porque era das poucas, raras, vezes que essa parte da família se juntava toda. Era sempre igual: jantávamos todos em casa da minha avó e depois voltávamos a passar o dia todos juntos, com mil pequenos pormenores a repetirem-se ano após ano.

Mas era, como disse, o ano todo a pensar naquilo... e depois aquilo passava num instante. O pior do Natal era mesmo o dia 25 à noite, porque tinha sido o ano todo à espera do Natal, da junção da família, e depois a coisa passava num instante e só voltava a ser Natal daí a um ano inteiro. 

Se calhar está aí a génese de eu hoje não ligar ao Natal. É que os meus Natais de puto foram mesmo muito bons. A fasquia ficou injustamente muito alta  para os Natais Presentes se aguentarem. Esperemos, pois, que a família aumente para que em breve, no Natal Futuro, eu possa voltar a gostar do Natal.

Ainda assim: Boas Festas, people! O surdo vai para cima da coluna.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Boas Festas

Está aí mais uma época festiva e para a acompanhar já temos aquele frio que até dói nas mãos e faz adiar os jogos da Sunday League. Em breve, provavelmente, teremos neve.

Os ingleses, esses, vivem o Natal com grande intensidade (ou isso, ou toda a gente vive o Natal com grande intensidade, menos eu), multilpicam-se em compras de prendas e oferecem postais de Natal a toda a gente que conhecem minimamente. Aqui a malta vai trabalhar a semana toda e depois a Vanessinha vai até casa, no sábado. Eu ainda fico mais uns dias e depois juntar-me-ei a ela e à família dela para a Passagem de Ano.

Depois teremos 2012. E 2012... bom, 2012 vai ser um ano do caraças. Para começar porque é ano par e já se sabe que um ano par é muito melhor porque tem Mundal ou Europeu. E depois, a nível pessoal, 2012 vai ser um ano repleto de grandes mudanças para os dois de Gloucester: umas já confirmadas, outras bem encaminhadas, outras apalavradas e outras ainda para as quais eu vou continuar a fazer pressão. Mas sobre isso escreverei ao longo do ano.

Para já, Bom Natal e Boas Entradas a quem vai querendo saber como a malta vai.

Já é antiguinho este vídeo, mas não deixa de ser bom.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Jantar de Natal LP0180


Contrariando a tradição, este ano o pessoal da minha farmácia resolveu fazer um jantar de Natal, em Dezembro. Não apareceu a equipa toda, mas os que foram fizeram uma festinha engraçada com boa comida, boa cerveja, barretes de Pai Natal, momentos de variedades, comédia e regabofe. E, como eu lhes disse ontem, é bom passarmos um bocadinho de tempo juntos fora daquele manicómio onde trabalhamos e longe do stress do trabalho. Foi uma festa gira... até às 23h.

Aí começou uma história, no mínimo, surreal, daquelas que parece que eu invento. As senhoras, quais Cinderelas com o relógio adiantado, começaram todas a preparar-se para ir embora e eu ia chamar um táxi para a cidade, para ainda ir dar um pezinho a algum lado (a Vanessa também teve um jantar de uma farmácia que a convidou). Estou eu prestes a ligar aos táxis quando uma das minhas colegas me diz: "Olha... e porque é que não pedes uma boleia ao George". Maldita hora!

O George é um senhor de 50 anos, farmacêutico, que costuma trabalhar lá na farmácia com regularidade e que se pode ver de azul, na foto, em baixo. Pergunto-lhe eu, às 23h00m: "Oh George, dás-me uma boleia?" "Claro, entra aí para o banco de trás que eu estou só aqui a mostrar uma música ao Jamie" (o Jamie é um rapaz que trabalha na loja da farmácia e que também aparecer aí na foto).

Pois bem... Eu entro no carro e começam eles a ouvir música. Perdão! Aquilo não era ouvir música. Aquilo era tentar rebentar com os tímpanos de um gajo, dado o indescritível volume da coisa e o seu conteúdo: tão só, heavy metal. E ouve-se a primeira música de AC/DC, ouve-se a segunda, ouve-se a terceira... Acaba a quarta e o George vira-se para o Jamie: "Olha e estes?" E aponta para um cd de uma banda chamada "Pantera", que faz os AC/DC parecerem o Coro de Santo Amaro de Oeiras. E o surdo no banco de trás... calado.

Sei dizer que correram o cd quase todo, ainda mudaram para Jimmy Hendrix (altura em que voltei a conseguir escutar os meus pensamentos) e, no final, antes de ir para a sua moto, o Jamie ainda disse: "Oh George, só mais uma de "Pantera" pró caminho". Era 00h30m quando finalmente nos pusémos ao caminho. E o pior é que ele nem ia bem para os meus lados e deixou-me bem longe do centro da cidade. Altura na qual, o meu orgulho já não me deixou chamar um  táxi e eu fui, vinte minutos, a pé, até casa (pois já não era hora de ir sair com jogo hoje), a comer na cabeça rapada, com os 0.5ºC que por essa hora faziam, em Gloucester.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Morreu o Dr. Sócrates

Diz o Sr. Meu Pai que o Brasil de 82 foi a melhor Selecção de futebol de sempre e que o facto de não ter sido campeão do mundo é o maior crime do futebol. Eu não sei porque só os vi em vídeo mas se o homem o diz, eu acredito.

O Dr. Sócrates - que morreu hoje - além de ser um dos craques dessa equipa e um dos jogadores de futebol mais elegantes de sempre, era um homem formado, culto e que se destacava fora do campo em lutas pela  democracia, numa altura em que o Brasil vivia em ditadura.

Aproveito a data para lembrar o "Dr. dos calcanhares" e deixo um vídeo sobre esse "tal" Brasil.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Mais três pontos

Parece o Benfica mas não é. É mais uma multa. Excesso de velocidade. No dia em que conduzi o carro da Vanessa para ir buscar o carro novo.

Mas esta é de um rigor assustador: numa zona de limite 30 mph, ia a umas loucas 35 mph. Ainda bem que o carro não tinha asas, senão levantava voo.

domingo, 27 de novembro de 2011

Adenda ao post anterior

Como já há algum tempo disse, no UK, uma vez que só existe uma forma para a segunda pessoa do singular - o "you" -, ninguém faz distinção entre tratamento coloquial - o "você" - ou familiar - o "tu". Aqui é tudo "you". Seja para a minha equipa, seja com as chefias, seja com os utentes, seja com pessoas mais novas ou mais velhas, só há uma forma de os tratar: "you".

A mim, se não for "you",  tratam-me por "André" (pelo menos aqueles que conseguem pronunciar o nome. Os outros optam por Andrea, Andreas, Andray, Andria...). Isto é válido desde o elemento mais novo da equipa, até ao mais afastado dos meus chefes - tudo me chama André. E não creio que se trate de uma questão de idade, pois já trabalhei com farmacêuticos mais velhos (40's, 50's) e nenhum era tratado por Mr.Isto ou Mrs.Aquilo. Eram simplesmente chamados por toda a gente de Corinne, George ou Ann (o que no fundo faz sentido... pois é o nome deles. Estranho era se os chamassem de Xô Vitor). De resto, eu próprio trato-os todos pelo primeiro nome ou por "you". Apenas os utentes são tratados por Mr, Mrs ou Miss. Sendo que eles próprios me tratam apenas por André.

Esta questão veio-me à cabeça, na sexta-feira, depois de uma reunião com uma chefe bem acima de mim que trato simplesmente por "Vanessa" e enquanto, passados dez minutos, um utente se dirigia a mim, chamando me simplesmente André. E eu pensava no quanto é irónico que, no país onde a minha profissão mais é valorizada, as pessoas se tratem de uma forma tão directa, sem formalismos bacocos de "doutor" para aqui e "doutor" para ali e sem precisarem desses formalismos para estabelecer relações respeitosas.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Sinais dos tempos


Por força da existência do blog e graças, também, à ida há uns meses à FFUC, recebo, amiúde, no mail, mensagens de colegas que procuram saber como é a experiência de um farmacêutico no UK e, nalguns casos, manifestando interesse em também vir. Neste momento, como lhes tenho dito, a facilidade em vir, não está como já esteve. Conheço um caso de uma emigrante recente mas, sem dúvida, que a vinda está muito complicada. Mas não é sobre isso que quero escrever.

O que me choca (é esta a palavra certa) são os testemunhos que me vão chegando. Os testemunhos de colegas que investiram imenso numa formação qualificada, que se dedicam ao que fazem e que se vêem, por um lado, numa carreira limitada e desmotivante (porque o papel do farmacêutico de oficina, em Portugal, é isso mesmo: limitado); e por outro que são agora vítimas de cortes de direitos, ordenados e regalias, que roçam a exploração.  A estes relatos, juntam-se as notícias que leio sobre o estado geral das coisas em Portugal e, muito particularmente, o estado da Farmácia (com a recente guerra aberta entre médicos e farnacêuticos, da qual nem uma Ordem nem a outra saem bem vistas).

E perguntam-me muitas vezes: mas o que é que é assim tão diferente, aí? Bom... a resposta a esta pergunta dava um bom livro. Mas se tivesse que o resumir num parágrafo diria que aqui trabalho em parceria com médicos/enfermeiros/outros profissionais de saúde/os próprios utentes e sou parte de um Sistema de Saúde onde ninguém precisa de se achar superior a ninguém e onde todos trabalham em conjunto, com vista ao que realmente interessa: a qualidade do serviço prestado aos utentes.

Para além de todo o respeito social que aqui há pela profissão, para além de toda a responsabilidade que está no que faço, para além de toda a pressão a que estou sujeito, para além do muito mais dinheiro que aqui ganho, para além de toda a qualidade de serviços que as farmácias colocam ao serviço dos utentes, para além de todas as funções de gestão que tenho; se tivesse que resumir porque é tão diferente o que faço, é no parágrafo anterior que o resumo está.

Ainda no outro dia, achei que uma dada dosagem de antibiótico era alta para a idade de uma criança. Liguei ao médico. Estava ocupado (também se fartam de trabalhar aqui). Ligou-me passados dez minutos e explicou a razão da dosagem como sendo um caso específico previsto no BNF. Pedi desculpa por lhe ter interrompido o trabalho ao que ele me responde: "Não. Não. Você não tem que pedir desculpa. Você tem é que me interromper sempre que algo lhe chamar a atenção. Nós gostamos de saber que podemos contar convosco como uma "rede de segurança". Dá para perceber a ideia, certo? Em Portugal, não só não agradecia, como não dava possibilidade de qualquer discussão, como levava a mal eu ter ligado. Isto se chegasse sequer a telefonar-me de volta. Aqui também já deve ter sido assim, mas desde que um tal de Dr. Harold Shipman se lembrou de matar mais de 200 pacientes, criou-se um sistema integrado de que todos (do médico ao utente) fazem parte e onde todos controlam o trabalho de todos.

A juntar a estas diferenças, todas as notícias que chegam de Portugal (do estado das coisas em geral e da minha profissão em particular) deixam-me triste. Principalmente, conhecendo o potencial do país, dos portugueses e dos meus colegas farmacêuticos em especial, e comparando com os ingleses que vejo não terêm nada a mais que nós. Estou cada vez mais seguro do timming e acerto da decisão que tomámos ao vir, e feliz pela forma como ambos nos impusémos e como as coisas nos correm, mas fico muito triste pelo meu país e pela forma como esta geração está a ter que se voltar para o estrangeiro para ver o investimento que fez na sua formação, reconhecido e valorizado.